6 de janeiro de 2010

'Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.

Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac.
É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade! '

"João Pereira Coutinho, jornalista"

2 comentários:

  1. Uau, a minha Amiga ainda mexe!
    Folgo em vê-la por aqui, de novo, sinceramente já tinha perdido a esperança.
    Quanto ao post é só mais um texto bonito, daqueles com ideias que todos concordam mas que depois, mercê de uma qualquer desculpa esfarrapada, quase ninguém concretiza.
    Infelizmente, a maioria das pessoas nem sequer se esforça para tentar ser feliz...
    Um Bom Ano de 2010. E como alguém recentemente desaparecido dizia, "Façam o favor de serem felizes!".

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  2. Aiué, mamaué,benvinda, já te davamos como desaparecida!!! Este texto é belissimo,por acaso tenho asorte de ter percebido a tempo, e ter deixado de adr importancias a tanta treta que nos é imposta, embora só fizesse isso depois de ter cometido todos os erros referidos no texto. Ainda assim valeu a pena, e cá estar é mto bom.

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